Quarta-feira 20 de agosto de 2008 07:43
Escola de samba perde quadra
Usada há mais de três décadas pelo Grêmio Recreativo Cidade Jardim para ensaios, área no Conjunto Santa Maria será transformada em unidade municipal de ensino infantil
Euler Junior/EM/D.A Press
Desocupação do espaço foi acompanhada por policiais militares, agentes da Guarda Municipal e fiscais da Prefeitura de Belo Horizonte

Uma ação de reintegração de posse, expedida pela 6ª Vara da Fazenda Municipal de Belo Horizonte, garantiu a desocupação da sede do Grêmio Recreativo Escola de Samba Cidade Jardim, que há 31 anos funcionava numa quadra do Conjunto Santa Maria, na Região Oeste da capital. A escola de samba existe há 45 anos e é uma das mais tradicionais da cidade. De acordo com a prefeitura, no terreno de 4 mil metros quadrados será construída uma Unidade Municipal de Educação Infantil (Umei), que deve ficar pronta em oito meses. Desde 2005, município e comunidade discutiam o futuro do espaço, mas não houve acordo.

Dois oficiais de Justiça tiveram proteção de 50 policiais militares, oito guardas municipais e 21 fiscais do município, mas a desocupação foi pacífica, apesar da revolta dos 600 integrantes da escola. Tão logo os caminhões da prefeitura deixaram o local, levando fantasias, adereços, instrumentos musicais e carros alegóricos, a empreiteira responsável pela obra, já com a ordem de serviço assinada, cercou a área e dois guardas municipais ficaram de plantão para evitar a reocupação.

Durante a desocupação, o som do berimbau, tocado pelo professor de capoeira Robson Barbosa, de 26 anos, tinha entonação de lamento. Ele também conseguiu salvar dois atabaques usados em suas aulas com as crianças do morro. Na cantina, a vice-presidente da escola e também vice-presidente da Associação dos Moradores do Conjunto Santa Maria, Cidade Amaral, não conseguia conter as lágrimas e embargava a voz quando lembrava seus 28 anos na Cidade Jardim. Por mais que ela tentasse adoçar o último café que preparava, o gosto era amargo, segundo ela. “Quem mora em aglomerado já convive o tempo todo com a sensação de perda. Com mais essa, vendo o sacrifício de uma comunidade inteira indo embora, a nossa auto-estima vai por água abaixo”, lamentou Cidade, lembrando que os ensaios da escola de samba foram retomados na semana passada.

A perda do espaço, segundo ela, também põe fim à festa Rede Favela, que reunia 40 comunidades da periferia no Bairro Santa Maria. “Estávamos trazendo essas pessoas para trabalharmos com elas culturalmente e convidá-las a participar do carnaval”, disse Cidade. A quadra também abrigava o Centro Cultural Jairo Pereira da Costa, que atendia 120 crianças e adolescentes em situação de risco social. No espaço eram oferecidos cursos de capoeira, dança africana, oficina de bambu, circo, teatro e bordados, além de abrigar as festas da comunidade. “Os meninos mais problemáticos da Escola Integrada participavam das nossas oficinas e o rendimento escolar deles melhorou muito nos últimos quatro meses”, disse cidade.

Segundo o gerente de regulação urbana da Regional Centro-Sul, William Nogueira, desde 2005 a prefeitura vem notificando os representantes da escola de samba para que desocupem o espaço. “Desde então, fizemos várias reuniões com eles, onde a prefeitura se colocou à disposição para que houvesse uma conciliação entre a Umei e as atividades da escola, mas eles foram intransigentes e não aceitaram nenhum tipo de negociação”, disse William. Segundo Nogueira, havia um comodato assinado em 1977, permitindo a permanência da escola no local, mas em 2005 a prefeitura desistiu de renovar o contrato. A escola de samba foi notificada, mas não desocupou o espaço. A partir daí, a Procuradoria do Município entrou com pedido de reintegração de posse na Justiça, sendo atendida nesta semana.

De acordo com a Regional Centro-Sul, a Umei a ser construída no local vai atender 400 crianças de zero a 5 anos. “Há alguns anos, o galpão, construído pela comunidade, estava desativado e a Escola Municipal Mestre Paranhos pediu autorização ao município para desenvolver projetos sociais no local”, informou a Centro-Sul.

O presidente da escola, Alexandre Silva Costa, reclama de falta de diálogo por parte da prefeitura e defende a construção da Umei, mas preservando o espaço da Cidade Jardim. “Construímos tudo com recursos próprios. A prefeitura já começou a negociação mandando a gente deixar o local”, disse Alexandre, que é filho do fundador da escola, Jairo Pereira da Costa. “Essa decisão da prefeitura foi mais um golpe contra a cultura, depois de mandar os desfiles de carnaval para a Via 240, que é um local distante e ninguém vai”, acrescentou.

O maior prejuízo, segundo Alexandre, será para a comunidade que utilizava o espaço para festas. “Estávamos preparando as comemorações dos 50 anos do Conjunto Santa Maria, em 21 de setembro, e ficamos sem lugar agora”, disse o presidente da escola. A dona-de-casa Marley Dias Prado, de 50 anos, acompanhou com tristeza o fechamento. “Estão levando embora um sonho de 47 anos. Não são dois dias, não são três dias, são 47 anos. Minha filha de 9 anos desfila na escola desde os 5 e o nosso sentimento é de luto”, disse.
 
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